Fundamentos Técnicos das Alucinações em Modelos de Linguagem
Para que o direito possa responder adequadamente aos danos causados por sistemas de inteligência artificial, é imprescindível compreender as bases teóricas que explicam o comportamento desses sistemas. A tendência de modelos generativos a produzir respostas incorretas, fictícias ou sem fundamento — o fenômeno das "alucinações" — não é um defeito acidental corrigível por simples atualização de software. Trata-se de uma consequência estrutural da arquitetura e do processo de treinamento dos modelos de linguagem de grande porte (LLMs), e compreendê-la é condição prévia para qualquer análise jurídica responsável.
A metáfora da "alucinação", embora de origem técnica, é justificada na literatura como analogia acessível: assim como as alucinações humanas descrevem percepções sem estímulo externo real, as alucinações da IA descrevem informações geradas sem correspondência nos dados ou padrões que o sistema foi efetivamente projetado para processar. A similitude não é perfeita — a IA não "percebe" coisa alguma —, mas a metáfora cumpre sua função comunicativa ao ilustrar, de forma acessível, um fenômeno técnico de outra forma opaco.
A Arquitetura Transformer e seus Limites
O primeiro elemento da base teórica a ser examinado é a própria arquitetura dos transformers, dominante nos LLMs modernos. Esses modelos utilizam mecanismos de atenção (attention mechanisms) para identificar padrões e relações contextuais em grandes volumes de texto. A eficácia desse mecanismo é notável: os transformers conseguem capturar dependências de longa distância em um texto — conexões entre informações separadas por muitos parágrafos — com um grau de sofisticação sem precedente na história do processamento de linguagem natural.
Contudo, essa sofisticação tem um custo teórico fundamental: o modelo aprende a gerar texto que é estatisticamente coerente com o corpus de treinamento, não texto que seja factualmente verdadeiro. A distinção é crucial. Um transformer treinado em bilhões de páginas da internet aprende que certas palavras e conceitos tendem a aparecer juntos em determinados contextos — e reproduz essa associação na geração de novas respostas. Se o corpus contiver associações equivocadas, o modelo as reproduzirá com a mesma fluência e aparente confiança com que reproduz associações corretas.
Geração Probabilística: Fluência sem Verdade
O segundo elemento teórico é o processo de geração probabilística de linguagem. Em termos simplificados, um LLM gera texto token por token — onde cada token pode ser uma palavra, parte de uma palavra ou um sinal de pontuação —, calculando, a cada passo, qual token tem maior probabilidade de ocorrer dado o contexto anterior. Esse processo é essencialmente preditivo: o modelo não "decide" o que dizer com base em um mapa interno da realidade; ele prevê o que seria linguisticamente provável naquele contexto.
Essa característica produz respostas que soam coerentes e fluentes, mas que podem ser completamente fictícias. No caso do professor Turley, o modelo provavelmente "calculou" que, no contexto de uma consulta sobre casos de assédio em universidades americanas, seria estatisticamente plausível mencionar o nome de um professor de direito proeminente — mesmo sem qualquer base factual para tal. A geração probabilística permitiu ao sistema construir uma narrativa estruturalmente convincente, mas factualmente inexistente.
Verificou-se, na análise técnica desses sistemas, que a geração probabilística também contribui para o fenômeno das chamadas "narrativas fictícias consistentes": histórias inteiras, com detalhes específicos, datas, nomes e referências bibliográficas, geradas de forma completamente inventada, mas internamente coerentes. A consistência interna da narrativa — e não sua correspondência com a realidade — é o que o modelo foi treinado para maximizar.
Overfitting, Ausência de Verificação e Dados de Baixa Qualidade
Um terceiro fator amplificador é o risco de overfitting localizado. O overfitting, em termos gerais, ocorre quando um modelo aprende excessivamente os padrões de seu conjunto de dados de treinamento, em vez de identificar tendências generalizáveis. Quando isso acontece em segmentos específicos do corpus — por exemplo, em tópicos sobre os quais o modelo tem poucos dados de treinamento —, o sistema tende a preencher lacunas com extrapolações inadequadas, utilizando padrões aprendidos de contextos similares. O resultado são respostas que parecem razoáveis superficialmente, mas que carecem de fundamentação.
Esse problema é agravado pela qualidade variável dos dados de treinamento. Os grandes modelos de linguagem são treinados em vastas porções da internet, onde informações corretas convivem indistintamente com erros factuais, rumores, paródias, ficção científica e conteúdo deliberadamente falso. O modelo não distingue, durante o treinamento, uma fonte confiável de uma não confiável — ele apenas aprende associações estatísticas. Assim, um artigo jornalístico verificado e uma teoria conspiratória não verificada têm, a priori, o mesmo peso no corpus de treinamento.
A ausência de mecanismos internos de verificação de fatos — o quarto elemento teórico — completa esse quadro. Diferentemente de um sistema de recuperação de informação (information retrieval), que busca respostas em uma base de dados estruturada e verificada, os LLMs geram respostas inteiramente a partir de suas representações internas aprendidas durante o treinamento. Não há, em sua arquitetura padrão, qualquer módulo que compare uma afirmação gerada com uma fonte externa de verdade antes de apresentá-la ao usuário.
A Ausência de Contextualização Dinâmica
Um quinto elemento, de relevância particular para os casos de alucinação com repercussão jurídica, é a ausência de contextualização dinâmica. Os transformers, ao contrário de sistemas conectados a bases de dados em tempo real, não atualizam suas respostas durante o processo de geração. Todo o conhecimento do modelo foi fixado no treinamento e permanece estático até que o modelo seja re-treinado com dados mais recentes. Isso significa que eventos ocorridos após o corte de treinamento são simplesmente desconhecidos pelo sistema — e, se consultado sobre eles, o modelo pode "inventar" respostas com base em padrões históricos, sem qualquer indicação ao usuário de que está operando além de seu conhecimento verificado.
Caixas-Pretas e a Opacidade dos Processos Decisórios
A combinação de todos esses fatores — geração probabilística, overfitting, dados heterogêneos e ausência de verificação — resulta no fenômeno que a literatura denomina "caixa-preta": sistemas cujos processos decisórios internos são opacos, mesmo para seus próprios desenvolvedores. Como observa Corvalán, embora se conheçam os princípios gerais que regem esses sistemas — como o ajuste de pesos nas conexões neuronais —, é impossível rastrear com precisão por que uma resposta específica foi gerada. Essa opacidade é ainda agravada pelo aprendizado não supervisionado, técnica em que o modelo analisa grandes quantidades de texto sem categorização explícita, aprendendo padrões linguísticos e contextuais sem qualquer compreensão da veracidade ou confiabilidade das informações processadas.
Essa base teórica tem implicações diretas para o direito. Sistemas classificados como caixas-pretas apresentam desafios probatórios severos: como demonstrar o nexo causal entre um defeito algorítmico específico e um dano concreto, quando nem os desenvolvedores conseguem explicar por que o sistema gerou aquela resposta? Como exigir transparência e explicabilidade — requisitos previstos tanto no AI Act (Regulamento UE 2024/1689) quanto no PL n. 2.338/2023 — de sistemas cuja arquitetura é, por design, opaca?
Parece-nos que a resposta regulatória adequada deve operar em dois níveis simultâneos: no nível técnico, incentivando — ou exigindo — o desenvolvimento de arquiteturas mais interpretáveis e a adoção de sistemas de verificação factual auxiliares; e no nível jurídico, estabelecendo regimes de responsabilidade que não dependam da prova de um defeito específico e rastreável, mas que reconheçam a natureza sistêmica e probabilística dos danos causados por LLMs. Só assim será possível construir um arcabouço normativo à altura dos desafios que a base técnica desses sistemas coloca ao direito contemporâneo.
Alessandro Casoretti Lavorante
Prof. Me. pela USP
Advogado especializado em Direito Digital, IA e Startups. Mestre em Direito Civil pela USP. Autor do livro "Responsabilidade Civil por Inteligência Artificial".